Rute
O Amor Fiel Vivido sob a Lei Divina
O estudo do livro de Rute (Rute 1–4), sob a ótica do Espiritismo, revela a atuação da Lei de Causa e Efeito na reorganização da vida, o valor do amor assumido com responsabilidade e a importância das escolhas conscientes na construção de vínculos duradouros, mesmo em contextos de perda, vulnerabilidade e instabilidade social.
A história de Rute se passa no período dos juízes, quando havia fome em Israel. Elimeleque, morador de Belém de Judá, deixa sua cidade levando com ele, sua esposa Noemi e seus dois filhos, Malom e Quiliom, para viver em Moabe. Ali se estabelecem por algum tempo. Elimeleque morre, e Noemi fica viúva. Mais tarde, seus filhos se casam com mulheres moabitas chamadas Orfa e Rute.
Cerca de dez anos depois, Malom e Quiliom também morrem, e assim as três mulheres tornam-se viúvas, sem filhos. Ao saber que a fome havia cessado em Judá, Noemi decide retornar a Belém. No caminho, orienta Orfa e Rute a voltarem para suas famílias, para que pudessem reconstruir suas vidas. Orfa aceita a orientação, despede-se de Noemi e retorna ao seu povo. Rute, porém, decide permanecer com Noemi, declarando que a acompanharia, que seu povo seria o povo de Noemi e que serviria ao mesmo Deus.
As duas chegam a Belém no início da colheita da cevada. Para garantir sustento, Rute passa a recolher espigas deixadas nos campos, conforme era permitido aos pobres. Ela entra no campo de Boaz, um homem respeitado, parente de Elimeleque. Ao saber quem era Rute e como ela cuidava de Noemi, Boaz permite que ela continue no campo, garante sua proteção e ordena que seus trabalhadores a tratem com respeito.
Noemi explica a Rute que Boaz é um parente próximo da família, com direito de resgatar a propriedade de Elimeleque e assumir a responsabilidade pela família.
Seguindo sua orientação, Rute vai até a eira onde Boaz dormia e se deita a seus pés. Ao despertar, Boaz compreende que Rute está pedindo proteção e compromisso dentro da responsabilidade familiar, reconhece que sua atitude é correta e respeitosa, conforme os costumes da época. Boaz explica que a decisão precisa seguir a ordem prevista pela lei e informa que existe outro parente mais próximo, que tem prioridade para assumir essa responsabilidade. Ele se compromete a resolver a situação conforme a lei.
No dia seguinte, Boaz reúne os líderes da cidade e apresenta o caso ao parente mais próximo.
O homem aceita resgatar a propriedade da família. No entanto, ao ser informado de que o resgate também incluía casar-se com Rute para que a família de Elimeleque tivesse continuidade por meio de descendência, ele desiste do direito, alegando que isso poderia prejudicar sua própria herança.
Como sinal público da renúncia, ele entrega sua sandália a Boaz.
Diante das testemunhas, Boaz declara que resgatará a propriedade da família e assume a responsabilidade. Casa-se com Rute e dela nasce Obede, que seria posteriormente o pai de Jessé e avô do rei Davi.
1. Crises coletivas e reorganização da vida
A fome que inicia a narrativa atua como fator de deslocamento e reorganização social. À luz do Espiritismo, provas coletivas criam cenários onde espíritos são conduzidos a experiências necessárias ao aprendizado e à recomposição de vínculos. (O Livro dos Espíritos, questões 258 e 737)
2. Perda, viuvez e amadurecimento moral
A sucessão de mortes coloca Noemi, Rute e Orfa em condição de fragilidade extrema. A dor não tem finalidade punitiva, mas educativa, favorecendo o amadurecimento, o desapego e a reorientação interior. Diante da mesma perda, Rute e Orfa respondem de modos distintos: Orfa acolhe a orientação de Noemi e retorna ao seu povo, enquanto Rute decide permanecer. Essa diferença não indica erro ou acerto moral, mas expressa o exercício legítimo do livre-arbítrio diante da prova. Em ambas as atitudes, não há revolta aberta nem ingratidão explícita, mas respostas compatíveis com o grau de compreensão e preparo espiritual de cada uma. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V)
3. Amor como decisão consciente
A permanência de Rute com Noemi não decorre de obrigação, mas de escolha. O amor se manifesta como compromisso assumido livremente, sustentado na convivência, no cuidado e na ausência de atitudes de ingratidão diante das dificuldades enfrentadas, expressando maturidade moral. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI)
4. Livre-arbítrio e responsabilidade
Orfa e Rute fazem escolhas diferentes diante da mesma situação. Cada espírito responde conforme sua compreensão e preparo, sendo responsável pelos caminhos que escolhe. (O Livro dos Espíritos, questões 843 e 872)
5. Trabalho simples e dignidade
O ato de recolher espigas mostra que o trabalho, mesmo humilde, preserva a dignidade e sustenta a vida. O esforço honesto é instrumento de progresso moral e equilíbrio interior. (O Livro dos Espíritos, questão 775)
6. Resgate, responsabilidade familiar e continuidade da vida
No livro de Rute, resgatar significa assumir, de forma legal e pública, a responsabilidade de proteger a propriedade da família, cuidar da viúva e garantir que a família não desapareça com o tempo. O casamento de Boaz com Rute e o nascimento de Obede asseguram a continuidade da família de Elimeleque, fato que o próprio texto bíblico destaca ao apresentar a genealogia que conduz até Davi. À luz do Espiritismo, esse episódio mostra que a justiça divina se realiza por meio de responsabilidades assumidas livremente, quando o amor se expressa em cuidado, proteção e compromisso real com o outro, sem imposição externa. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XVII)
7. Amor aliado à justiça
Boaz age com respeito à lei e consideração pelo próximo. Seu comportamento mostra que o amor, para ser verdadeiro, precisa estar unido à justiça e à responsabilidade, não ao impulso ou ao interesse pessoal. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XI e XVII)
8. Rute na linhagem que conduz a Jesus
O livro de Rute não termina apenas com um casamento ou com a superação de dificuldades familiares. A Bíblia encerra essa narrativa apresentando uma genealogia que liga Rute a Obede, a Jessé e, finalmente, ao rei Davi. Esse detalhe projeta para o futuro de Israel e da Humanidade. No Novo Testamento, essa mesma linhagem é retomada para situar Jesus como descendente direto de Davi, conforme registrado no Evangelho de Mateus.
Assim, a história de Rute revela que a vinda do Cristo não ocorre fora da experiência humana, mas dentro dela. Jesus surge a partir de uma cadeia real de vidas, escolhas e responsabilidades assumidas ao longo do tempo. A presença de uma mulher estrangeira nessa linhagem mostra que o plano divino não se limita a origem, nacionalidade ou condição social, preparando progressivamente o caminho para o Cristo.
À luz do Espiritismo, essa continuidade ensina que a lei divina atua de forma progressiva, respeitando o tempo, as relações humanas e as decisões conscientes. O amor leal de Rute, a responsabilidade assumida por Boaz e o cuidado com a família constroem um caminho que, geração após geração, prepara o cenário para a vinda de Jesus, referência maior de amor, justiça e fraternidade para a Humanidade. (Mateus 1:5. O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. I)
Rute 1–4 mostra que a lei divina se manifesta na vida comum por meio do amor vivido com responsabilidade. A narrativa revela que crises, perdas e escolhas não são isoladas, mas fazem parte de um processo educativo no qual cada espírito é convidado a agir com consciência, trabalho e fidelidade ao bem.
À luz do Espiritismo, o amor aparece como força ativa: sustenta decisões difíceis, inspira cuidado com o outro e conduz à reparação do que foi perdido. Rute, ao permanecer com Noemi, e Boaz, ao assumir sua responsabilidade, demonstram que o amor verdadeiro não se limita ao sentimento, mas se expressa em atitudes concretas, justas e perseverantes.
O livro ensina que a justiça divina respeita o livre-arbítrio, valoriza o esforço honesto e transforma relações simples em instrumentos de crescimento espiritual. Assim, Rute revela que o amor consciente, vivido com responsabilidade, justiça e fidelidade, aliado ao dever e ao trabalho, é caminho seguro de reorganização da vida e de progresso do espírito.
Equipe Jesus em Nossa Vida
Bibliografia
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. França.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 3 ed. França.
Bíblia Sagrada. Rute 1–4. Nova Versão Internacional (NVI).
Material de apoio
BÍBLIA VIDA FÉ. A história de Rute. YouTube, canal @bibliavidafe-shorts, 14 nov. 2025. Disponível em: <www.youtube.com/shorts/7b6jmc089Wc?feature=share>. Acesso em: 23 dez. 2025.