Gideão
O Triunfo da Fé Humilde na Missão Divina
O estudo da passagem de Gideão (Juízes 6–8), sob a ótica do Espiritismo, revela a Lei de Causa e Efeito em ação sobre o povo, a perseverança da Espiritualidade Superior e a importância do esforço pessoal na superação da dúvida.
O povo de Israel estava sendo oprimido pelos midianitas há sete anos, como consequência de terem se afastado de Deus. Gideão, um homem simples e temeroso, estava malhando trigo secretamente num lagar para esconder a colheita dos invasores.
Então, o Anjo do Senhor apareceu a Gideão e o chamou de “homem valente e forte”, dizendo que Deus estaria com ele para salvar Israel. Gideão, repleto de medo e descrença, questionou a presença de Deus e a capacidade de salvação, mencionando ser o menor de sua família.
Para confirmar a missão, Gideão pediu um sinal. O Anjo concordou, e Gideão preparou um sacrifício. Ao tocar a oferta com a ponta do cajado, o fogo consumiu instantaneamente a carne e o pão ázimo, e o Anjo desapareceu. Gideão, reconhecendo a presença divina, sentiu temor e construiu ali um altar.
Naquela mesma noite, Gideão recebeu a ordem do Senhor e derrubou o altar que seu pai possuía em honra a Baal e cortou o poste sagrado da deusa Aserá, construindo no lugar um altar ao Senhor. Na manhã seguinte, os habitantes da cidade quiseram matá-lo por causa desse ato, mas ele foi defendido por seu pai.
Ainda inseguro, Gideão pediu dois sinais adicionais, conhecidos como o "teste do velo":
Primeiro sinal: pediu que, durante a noite, houvesse orvalho somente na lã e o chão permanecesse seco. Pela manhã, torceu a lã e encheu uma taça de água.
Segundo sinal: pediu o contrário, que a lã estivesse seca e o orvalho recaísse apenas sobre a terra. O Senhor atendeu aos dois sinais.
Depois que o Espírito do Senhor se apossou de Gideão, os midianitas, os amalequitas e outros povos do Oriente, se uniram no vale de Jezreel para saquear as terras de Israel.
Gideão então convocou as tribos de Manassés, Aser, Zebulom e Naftali, reunindo trinta e dois mil homens.
Com o exército formado, Deus instruiu Gideão a reduzir o número de soldados, para que a vitória não fosse atribuída à força humana, mas à ação divina. Primeiramente, o Senhor ordenou que todos os que estivessem dominados pelo medo retornassem para casa. Diante desse anúncio, vinte e dois mil homens se retiraram, restando apenas dez mil.
Em seguida, Deus determinou um novo critério: conduziu Gideão com os soldados até a água e observou a forma como bebiam. Aqueles que se ajoelharam e beberam despreocupadamente foram separados dos que levaram a água à boca com a mão, mantendo-se atentos. Apenas trezentos homens beberam dessa segunda forma, permanecendo vigilantes. Foram esses os escolhidos para a batalha, enquanto os demais foram dispensados. Assim, o exército foi reduzido de trinta e dois mil para apenas trezentos homens.
Com esses trezentos, armados apenas com trombetas, cântaros vazios e tochas, Gideão atacou o acampamento inimigo. O barulho repentino e a luz inesperada causaram pânico, levando os midianitas a se desorganizarem e a se voltarem uns contra os outros. Israel venceu e jamais voltou a ser oprimido por eles. Gideão recusou a realeza, afirmando que somente o Senhor deveria reinar.
A visão espírita de Gideão demonstra o predomínio da confiança em Deus sobre o medo humano, oferecendo um paralelo direto com as lutas morais do indivíduo.
Por que Israel sofria? A opressão midianita é compreendida como consequência da Lei de Causa e Efeito (O Livro dos Espíritos, questão 1014). O afastamento do culto ao Deus único e a adesão à idolatria resultaram em sofrimento coletivo.
Quem eram os midianitas e amalequitas? Eram tribos nômades que realizavam incursões periódicas para saquear as colheitas de Israel, mantendo histórica hostilidade contra o povo hebreu.
O que significa malhar trigo num lagar? Malhar trigo consistia em bater ou pisar as espigas para soltar os grãos, processo essencial para o preparo do alimento e normalmente realizado em locais abertos, chamados eiras, onde o vento auxiliava na separação dos grãos da palha. Mas malhar o trigo em um lagar, espaço fechado destinado à produção de vinho, indica o estado de temor, escassez e constante ameaça, revelando um povo reduzido à defensiva e um homem obrigado a agir em condição de ocultamento.
Por que o domínio estrangeiro foi permitido? O domínio estrangeiro surge como consequência natural das escolhas morais do povo, funcionando como estímulo indireto ao reajuste espiritual.
O que a intervenção divina exige? A chamada intervenção divina se expressa como assistência espiritual, mas requer mudança de atitude voltada ao bem e esforço consciente por parte dos encarnados.
1. Os fenômenos: assistência espiritual e limites da dúvida
Os sinais concedidos a Gideão podem ser compreendidos, à luz da Doutrina Espírita, como fenômenos de efeitos físicos, destinados a fortalecer a convicção.
O Anjo do Senhor: Não corresponde a uma figura simbólica alada, mas a um Espírito Superior incumbido de orientar e amparar (O Livro dos Espíritos, questão 455). Sua manifestação pode ser entendida como uma percepção mediúnica clara ou uma materialização momentânea.
O Fogo: O fogo que consome a oferta, assim como em Elias no Monte Carmelo, pode ser compreendido como um fenômeno espiritual de efeitos físicos, resultado da ação inteligente dos Espíritos sobre os fluidos da Natureza, sem que se possa definir com precisão o mecanismo íntimo do processo (A Gênese, cap. 14, item 36), demonstrando a presença de uma inteligência superior.
A Prova do Velo: A prova do velo, com o controle do orvalho, representa a ação consciente dos Espíritos sobre os elementos naturais. Esses sinais revelam que a assistência espiritual respeita as limitações humanas, atuando dentro das leis naturais para favorecer o esclarecimento gradual da fé (O Livro dos Espíritos, questão 584).
2. A moral: humildade, dúvida e vigilância
A experiência de Gideão oferece reflexões diretas sobre o amadurecimento moral.
A Fragilidade Humana: A autodefinição de Gideão como “o menor da casa de meu pai” (Juízes 6:15) reflete a dificuldade comum de confiar plenamente na Providência (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19).
A Paciência com a Dúvida: A permissão do "teste do velo" indica que a dúvida sincera pode ser assistida. Os sinais visavam fortalecer a convicção daquele que serviria como instrumento da assistência espiritual, sem necessidade de classificá-lo segundo categorias mediúnicas posteriores. A fé, para ser sólida, deve ser compreendida e raciocinada (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 7).
A Seleção dos Trezentos: A seleção dos trezentos simboliza que, na obra divina, a qualidade moral se sobrepõe ao número. Os homens vigilantes, que beberam água mantendo a atenção, representam o estado de prontidão espiritual, valorizado pela Doutrina (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 25, item 5).
A missão de Gideão se concretiza pela união entre inspiração espiritual e ação humana.
Livre-Arbítrio: O Livre-Arbítrio é respeitado: Gideão aceita a missão conscientemente após as provas (O Livro dos Espíritos, questão 843). O Espírito orienta, mas a decisão e a ação pertencem ao homem.
Estratégia e Cooperação: A estratégia empregada demonstra o uso inteligente dos meios. A tarefa espiritual progride à medida que o esforço humano se harmoniza com a inspiração superior, respeitando o livre-arbítrio (O Livro dos Espíritos, questão 258).
Recusa da Realeza: Ao recusar a realeza, Gideão expressa humildade e desapego, reconhecendo que a vitória não lhe pertence, mas à Deus (O Livro dos Espíritos, questão 893).
A trajetória de Gideão ilustra o caminho do Espírito que, mesmo consciente de suas limitações, é amparado pelos bons Espíritos para cumprir sua tarefa.
As manifestações observadas não são fins em si mesmas, mas meios educativos para fortalecer a convicção moral. A vitória não resulta da força material, mas da confiança lúcida na Lei de Deus e da cooperação entre o mundo espiritual e o esforço humano.
A dúvida, quando honesta, pode servir como impulso ao esclarecimento e à responsabilidade moral, desde que conduzida à ação consciente no bem.
Equipe Jesus em Nossa Vida
Bibliografia
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. França.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 3 ed. França.
KARDEC, Allan. A Gênese. 4 ed. França.
Bíblia Sagrada. Juízes 6-8. Nova Versão Internacional (NVI).
Material de apoio
BÍBLIA VIDA FÉ. De 32 Mil Soldados a Apenas 300: A Vitória Impossível de Gideão!. YouTube, canal @bibliavidafe-shorts, 7 nov. 2025. Disponível em: <www.youtube.com/shorts/49KzwDXqkwI?feature=share>. Acesso em: 13 dez. 2025.