O Livro dos Espíritos | Livro 1 “Causas primárias” | Capítulo 3 “A Criação”
Considerações e concordâncias bíblicas sobre a Criação, questão 59
Galileu afirmou que a Terra girava em torno do Sol. A Igreja o condenou. Ele foi obrigado a se retratar. Mesmo assim, a Terra continuou girando — porque a verdade não depende da aprovação dos homens. Kardec usa esse exemplo na questão 59 de O Livro dos Espíritos para mostrar que o mesmo vale para a Criação.
A Bíblia diz que o mundo foi criado em seis dias e que Adão foi o primeiro homem, há cerca de 4.000 anos antes de Cristo. Durante séculos, isso foi lido como relato histórico exato. A Ciência, porém, mostra que a Terra tem 4,5 bilhões de anos, que os primeiros seres vivos surgiram há centenas de milhões de anos, e que o ser humano existe há pelo menos 300.000 anos.
Isso não invalida a Bíblia. Mostra que a Bíblia foi entendida e interpretada de modo errado. A Bíblia foi escrita para registrar a relação de Deus com a humanidade, usando a linguagem que aquele povo conseguia entender. Ciência e Bíblia não tratam da mesma coisa — e as duas se completam.
Jesus sabia disso. Ele nunca ensinou tudo de forma direta — ensinava por parábolas, histórias que precisavam ser interpretadas. E Paulo reforça esse princípio ao lembrar que a letra mata, mas o espírito dá vida (2 Coríntios 3:6). Quem lê a Bíblia como manual científico perde a mensagem que ela carrega
Segundo Kardec, a contradição entre Ciência e Bíblia é mais aparente do que real. Ela nasce da leitura literal do que foi escrito em linguagem figurada. Os “seis dias” da Criação não são dias de 24 horas — são grandes períodos da formação da Terra. A própria Geologia mostra que o planeta não surgiu pronto, mas passou por diversas etapas até se tornar habitável. A ordem em que tudo surgiu — primeiro o mundo sem vida, depois as plantas, os animais e por último o ser humano — corresponde à sequência geral observada pela Ciência. A concordância está na ordem; a diferença está no tempo.
Kardec traz ainda pontos específicos na questão 59. Adão não foi o primeiro ser humano — foi um marco na história humana, não o início biológico da espécie. Ele viveu há cerca de 6.000 anos, em regiões ainda pouco habitadas. Isso não marca o começo da humanidade, mas um ponto da sua história. O dilúvio de Noé foi real, mas não cobriu o planeta inteiro. Foi uma inundação devastadora para quem a viveu, numa região específica, que com o tempo foi confundida com eventos geológicos muito maiores e mais antigos. E a narrativa da Criação em Gênesis não é um erro: é uma síntese simbólica de um processo real.
Ciência e fé não são inimigas. Se Deus é o autor da Natureza, as leis que a Ciência descobre são as mesmas que Ele estabeleceu, e não há contradição real entre a verdade espiritual e a verdade científica. Quando surge um aparente conflito entre elas, o problema está na interpretação humana, não em Deus, pois conhecer melhor a Criação é, em certo sentido, conhecer melhor o Criador. A fé que exige negar a realidade não é firmeza, é fragilidade. Aceitar a verdade mesmo quando ela desafia antigas ideias é crescimento espiritual, enquanto insistir no erro por apego à interpretação é rejeitar a luz que já foi revelada.
Equipe Vida e Espiritismo
Bibliografia: KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. França.Esta é uma livre interpretação.