O Livro dos Espíritos | Livro 4 “Esperanças e consolações” | Capítulo 2 “Punições e prazeres futuros”
Duração das penas futuras segundo santo Agostinho, questão 1009
A ideia de penas eternas sempre despertou questionamentos. Se Deus é infinitamente justo e bom, como conciliar esses atributos com uma condenação sem fim? Em O Livro dos Espíritos, na questão 1009, Kardec apresenta uma comunicação de Santo Agostinho que aborda esse tema à luz da justiça e da bondade divinas.
Santo Agostinho afirma que uma condenação perpétua pelos erros cometidos durante a existência seria incompatível com a bondade de Deus. Segundo ele, a crença em um Deus terrível, ciumento e vingativo surgiu da tendência dos povos antigos de atribuir à Divindade as paixões humanas. Deus, porém, coloca o amor, a caridade, a misericórdia e o esquecimento das ofensas entre as primeiras virtudes.
Santo Agostinho convida à reflexão sobre a desproporção entre a brevidade da existência terrena, mesmo que dure cem anos, e a ideia de eternidade: um sofrimento sem fim e sem esperança em resposta a algumas faltas cometidas em tão pouco tempo. Ele aponta, ainda, uma contradição em atribuir a Deus, ao mesmo tempo, bondade infinita e vingança infinita, já que a justiça divina não exclui a bondade. Tampouco seria justo exigir do homem o cumprimento de uma justiça cujos meios de compreensão não lhe foram dados.
Não há, portanto, contradição entre a justiça e a bondade de Deus: uma completa a outra. A justiça divina não consiste em castigos eternos e imutáveis, mas em oferecer ao Espírito oportunidades de reconhecer os próprios erros, reparar o mal praticado e prosseguir em seu aperfeiçoamento.
Esse entendimento está em harmonia com o ensinamento de Jesus: "a cada um segundo as suas obras" (Mateus 16:27). Cada Espírito responde pelos próprios atos e encontra, na justiça de Deus, oportunidades de progredir.
A duração das penas, assim, não é determinada por um decreto irrevogável, mas pelos esforços do próprio Espírito para se melhorar. À medida que reconhece suas imperfeições, repara o mal e avança moralmente, ele próprio modifica sua condição futura. Deus não condena seus filhos ao sofrimento sem esperança: respeitada a liberdade e a responsabilidade de cada um, a justiça divina oferece, continuamente, meios para o progresso.
Equipe Vida e Espiritismo
Bibliografia: KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. França.Esta é uma livre interpretação.