O Livro dos Espíritos | Livro 2 “Mundo espírita ou dos Espíritos” | Capítulo 6 “Vida espírita”
Escolha das provas, questões 258 a 266
O artigo de hoje convida a uma reflexão sobre as questões 258 a 266 de O Livro dos Espíritos, que abordam a escolha das provas.
Antes de iniciar uma nova existência corporal, o Espírito escolhe o gênero de provas por que passará, e é justamente nessa escolha que consiste o seu livre-arbítrio. Naturalmente, nada ocorre sem a permissão de Deus, pois foi Ele quem estabeleceu todas as leis que regem o Universo. Ao dar ao Espírito a liberdade de escolher suas próprias provações, Deus lhe deixa a inteira responsabilidade por seus atos e pelas consequências que deles derivarem. Se o Espírito vier a sucumbir, resta-lhe a consolação de saber que nem tudo se acabou e que a bondade divina lhe concede a oportunidade de recomeçar o que foi mal feito.
Contudo, embora pertença ao Espírito a escolha do gênero de provas, nem todas as dificuldades experimentadas na vida são previsíveis ou foram buscadas por ele. Muitas dessas particularidades decorrem da própria posição em que a pessoa se encontra no mundo e são, frequentemente, consequências das ações anteriores do próprio Espírito. Ao escolher nascer entre malfeitores, por exemplo, o Espírito sabe perfeitamente ao que se expõe, mas ignora quais atos específicos virá a praticar, pois essas ações resultam de sua vontade e de seu livre-arbítrio no momento presente. Os acontecimentos secundários da vida se originam das circunstâncias cotidianas e da força natural das coisas, de modo que apenas os fatos principais, que influenciam diretamente no destino, são previstos. É como um viajante que caminha por uma estrada cheia de buracos: ele sabe que precisará andar com cuidado porque a probabilidade de cair é grande, mas não sabe o ponto exato da queda, e pode até mesmo não cair se for bastante prudente.
Da mesma forma, um Espírito pode pedir a riqueza e tê-la concedida; a partir daí, conforme o seu caráter, poderá tornar-se avarento ou esbanjador, egoísta ou generoso, ou ainda lançar-se aos prazeres da sensualidade, o que não significa que ele tenha que passar forçosamente por todas as tentações existentes.
Em sua origem, quando ainda é ignorante e sem experiência, o Espírito tem o seu caminho inicialmente traçado por Deus. No entanto, à medida que seu livre-arbítrio se desenvolve, Deus o deixa gradativamente livre para fazer suas escolhas, e é nesse ponto que muitas vezes o Espírito se extravia e toma o mau caminho por desatender aos conselhos dos bons Espíritos. Por outro lado, Deus também pode impor uma determinada existência a um Espírito quando este, por sua inferioridade ou má-vontade, não se mostra apto a compreender o que lhe seria mais útil, utilizando essa imposição para a sua purificação, progresso e expiação.
Aqueles que têm maturidade para escolher suas provas o fazem de acordo com a natureza de suas faltas anteriores, buscando alternativas que os levem à expiação e a um progresso mais rápido. Por isso, alguns impõem a si mesmos uma vida de misérias e privações com o objetivo de aprender a suportá-las com coragem. Outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder, que são muito mais perigosas pelos abusos, pela má aplicação e pelas paixões inferiores que costumam desenvolver. Há também muitos que decidem testar suas forças em lutas diretas contra o vício.
Sob a influência das ideias carnais, o homem na Terra só consegue enxergar o lado penoso dessas provações, achando natural que se escolham apenas caminhos que combinem com os prazeres materiais. Na vida espiritual, contudo, o Espírito compara esses prazeres fugazes e grosseiros com a felicidade inalterável que consegue entrever no futuro, e os sofrimentos terrenos passageiros deixam de impressioná-lo. Assim, o Espírito pode escolher uma prova muito rude e uma existência angustiante na esperança de alcançar mais rápido um estado melhor, agindo da mesma forma que um doente que escolhe o remédio mais desagradável para se curar de pronto.
Equipe Vida e Espiritismo
Bibliografia: KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 2 ed. França.Esta é uma livre interpretação.