O Livro dos Espíritos | O Livro dos Espíritos | Livro 3 “Leis morais” | Capítulo 10 “Lei de liberdade”
Livre-arbítrio, questões 843 a 850
Neste artigo vamos abordar as questões 843 a 850 de “O Livro dos Espíritos”. Estas questões falam sobre o livre-arbítrio.
A liberdade humana se manifesta como uma das maiores expressões da consciência. O homem possui o poder de pensar e agir por si mesmo; sem essa capacidade, seria apenas uma máquina, incapaz de construir sua própria história. Essa liberdade, porém, não surge plenamente desenvolvida. No início da vida, quando as faculdades ainda são imaturas, ela se apresenta quase nula, expandindo-se à medida que a vontade e a inteligência se fortalecem.
As tendências instintivas que acompanham o homem desde o nascimento representam marcas do espírito, traços adquiridos antes da encarnação. Elas podem impulsionar comportamentos inadequados, especialmente quando encontram afinidade com influências espirituais semelhantes. Ainda assim, nenhuma dessas inclinações é irresistível quando existe real desejo de resistir. A vontade permanece como a força soberana que orienta escolhas e mudanças; querer é poder.
Embora o espírito seja influenciado pelo corpo físico, essa influência não anula a responsabilidade individual. Em mundos onde o corpo é menos material que na Terra, as faculdades se manifestam com maior liberdade, mas isso não significa que o organismo determine por completo as ações humanas. Tendências morais pertencem ao espírito, não ao corpo. Aquele que se deixa dominar pela materialidade, esquecendo-se de disciplinar seus pensamentos, enfraquece sua própria defesa contra o mal, e essa negligência, sendo voluntária, constitui falta consciente.
Em alguns casos, a liberdade pode ser temporariamente perdida. Alterações profundas das faculdades mentais impedem o indivíduo de ser dono de seus próprios pensamentos, como é o caso da obsessão, por exemplo. Muitas dessas perturbações são consequências de escolhas feitas em vidas anteriores, quando se abusou das faculdades intelectuais ou morais. Na sabedoria divina, aquele que um dia ocupou o poder pode renascer em condições de extrema limitação, sempre com consciência espiritual dessa experiência e de seus efeitos educativos.
Quando a alteração das faculdades decorre de escolhas voluntárias — como no caso da embriaguez — não há desculpa moral. Quem decide se entregar a um vício abre mão da lucidez por vontade própria, multiplicando suas faltas ao provocar, deliberadamente, o estado que o conduz a crimes e atos reprováveis.
No estado selvagem, o instinto predomina, mas a liberdade de agir já está presente, ainda que aplicada apenas às necessidades mais imediatas, como ocorre com as crianças. À medida que a inteligência se expande, cresce também o grau de responsabilidade pelos próprios atos. Da mesma forma, as condições sociais podem impor obstáculos à plena liberdade; contudo, mesmo diante das exigências do mundo, Deus leva em conta todas as circunstâncias. O homem continua responsável pelo esforço que faz — ainda que pequeno — para superar dificuldades e orientar-se pelo bem.
O livre-arbítrio é um patrimônio essencial do espírito, moldado e ampliado ao longo das experiências da vida corporal e espiritual. Influências externas, tendências interiores, limitações físicas e condições sociais podem afetar a forma como essa liberdade se expressa, mas jamais anulam a responsabilidade fundamental do indivíduo diante de suas escolhas. A evolução moral acontece justamente nesse campo de luta, onde a vontade se torna a ferramenta principal para elevar-se acima dos impulsos, vencer obstáculos e trilhar, livremente, o caminho do bem.
Equipe Vida e Espiritismo
Bibliografia: KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1 ed. França.Esta é uma livre interpretação.