A boa notícia levada por quatro homens com lepra
Por que os primeiros a saber da libertação de Samaria são exatamente os que a cidade mantinha do lado de fora?
Samaria está cercada. O exército sírio corta as rotas de suprimento e a fome domina a cidade. Junto ao portão vivem quatro homens com lepra, mantidos fora dos muros por uma lei de isolamento que continuava em vigor mesmo diante da fome que atingia a cidade.
À luz do Espiritismo, o episódio de 2 Reis 7:3-11 permite examinar o livre-arbítrio diante de uma escolha sem garantia, o peso moral de guardar para si uma notícia que salva outros e a capacidade de realizar uma tarefa útil mesmo estando em uma condição de exclusão social.
Quatro homens com lepra estavam junto ao portão de Samaria.
Disseram uns aos outros:
— Por que vamos ficar aqui esperando a morte?
— Se entrarmos na cidade, morreremos de fome, porque lá não há alimento. Se ficarmos aqui, também morreremos. Vamos até o acampamento dos sírios. Se eles nos deixarem viver, viveremos. Se nos matarem, morreremos.
Ao anoitecer, seguiram para o acampamento sírio. Chegaram e não encontraram ninguém.
Deus havia feito os sírios ouvirem um barulho de grande exército, com cavalos e carros de guerra. Pensaram que o rei de Israel havia contratado outros reis para atacá-los. Fugiram para salvar a própria vida, abandonando tendas, cavalos, jumentos e tudo o que havia no acampamento.
Os quatro homens entraram numa tenda. Comeram e beberam. Pegaram prata, ouro e roupas, e esconderam.
Voltaram, entraram em outra tenda, fizeram o mesmo.
Então disseram uns aos outros:
— Não estamos agindo bem. Hoje recebemos boas notícias e estamos calados. Se esperarmos até amanhã, sofreremos as consequências. Vamos agora anunciar isso no palácio.
Saíram do acampamento, voltaram a Samaria e chamaram os guardas:
— Fomos ao acampamento dos sírios e não vimos nem ouvimos ninguém. Os cavalos e os jumentos continuam amarrados, e as tendas estão como foram deixadas.
Os guardas anunciaram a notícia, e ela chegou ao palácio.
Os quatro homens viviam junto ao portão de Samaria. Tinham lepra e, por isso, permaneciam fora da cidade. A Lei de Israel determinava que pessoas nessa condição fossem afastadas do convívio da comunidade enquanto fossem consideradas impuras. A reintegração dependia da constatação da cura e dos procedimentos previstos na Lei. (Levítico 13:45-46; 14:1-20)
Eles estavam fora dos muros, separados da família e do convívio social. Naquele momento, também enfrentavam a fome provocada pelo cerco.
Samaria era a capital do reino de Israel. O exército sírio havia cercado a cidade, interrompido seu abastecimento e acampado nas proximidades. Com a cidade isolada e sem receber alimentos regularmente, os preços chegaram a níveis extremos, e a população enfrentava uma situação de fome. A área externa também permanecia sob ameaça do exército inimigo. (2 Reis 6:24-29)
O episódio acontece durante a atuação do profeta Eliseu. Ele havia anunciado que haveria alimento em abundância em Samaria. (2 Reis 7:1-2)
Na sequência, Deus fez os sírios ouvirem um grande ruído. Os soldados entenderam que forças militares estavam chegando para atacá-los. Abandonaram o acampamento e deixaram para trás suas tendas, animais, alimentos e bens. (2 Reis 7:6-7)
Os quatro homens estavam fora de Samaria porque a Lei determinava o afastamento de pessoas com lepra. Com fome, tinham três possibilidades: permanecer onde estavam, entrar na cidade desobedecendo à Lei ou ir ao acampamento sírio, onde poderiam encontrar o exército inimigo. Eles escolheram ir ao acampamento sírio. A escolha envolvia a própria sobrevivência, o cumprimento da Lei e a incerteza sobre o que encontrariam. Não havia garantia sobre o resultado. Kardec ensina que o homem tem liberdade para agir e responde pelo uso que faz dessa liberdade. (O Livro dos Espíritos, q. 872)
Ao chegarem ao acampamento, encontraram as tendas vazias. O exército sírio havia fugido e deixado alimentos, animais e outros bens (2 Reis 7:6-7). A Bíblia atribui a fuga à ação de Deus: os soldados ouviram um grande ruído e entenderam que um grande exército estava chegando (2 Reis 7:6-7). Kardec ensina que os fenômenos extraordinários obedecem às leis da Natureza, ainda que sua causa não seja conhecida. (A Gênese, cap. 14, item 14)
Os quatro homens eram considerados impuros, viviam fora da cidade e estavam excluídos do convívio social. Também sofriam com a fome que atingia Samaria. Poderiam ter guardado para si a descoberta do acampamento abandonado, deixando os moradores enfrentarem a mesma fome. Em vez disso, levaram a notícia à cidade. Kardec ensina que as diferenças sociais não estabelecem diferenças de valor entre os Espíritos, e que a posição social não determina a capacidade de realizar algo útil. (O Livro dos Espíritos, q. 803)
Depois de encontrar alimentos e outros bens, os quatro homens comeram, beberam e esconderam parte do que encontraram. Em seguida, reconheceram que precisavam comunicar à cidade que o acampamento estava abandonado. Kardec ensina que riqueza e pobreza são provas para o Espírito e que os recursos materiais devem ser utilizados de acordo com os deveres de cada pessoa. (O Livro dos Espíritos, q. 814-816)
Séculos depois, Jesus encontra dez homens com lepra que permaneciam afastados da comunidade. Eles pedem ajuda, e Jesus os orienta a se apresentarem aos sacerdotes, conforme o procedimento previsto pela Lei para a constatação da cura e a reintegração ao convívio social. No caminho, percebem que foram curados. (Lucas 17:11-19; Levítico 14:1-20)
O episódio permite relacionar a situação desses homens com a definição de caridade apresentada por Kardec: benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. Os quatro homens de Samaria, mesmo vivendo afastados da cidade e enfrentando a mesma fome, levaram aos moradores a notícia que poderia beneficiá-los. (O Livro dos Espíritos, q. 886)
Na obra Vinha de Luz, psicografada por Francisco Cândido Xavier, no capítulo “Avareza”, Emmanuel amplia o conceito para além da retenção de dinheiro, mostrando que também existe retenção quando uma pessoa guarda para si aquilo que poderia beneficiar outros. (Vinha de Luz, cap. 52, “Avareza”). Os quatro homens encontraram alimentos e bens no acampamento sírio e, depois de atenderem às próprias necessidades, perceberam que havia algo que também precisava ser compartilhado: a notícia que poderia levar alimento aos moradores de Samaria. A reflexão destaca que a vida não está na quantidade de bens acumulados, mas nos benefícios que cada pessoa consegue proporcionar aos outros.
Em Pensamento e Vida, também psicografada por Francisco Cândido Xavier, Emmanuel apresenta o trabalho como instrumento de emancipação e distingue a ação realizada simplesmente por movimento daquela que encontra sentido no serviço. (Pensamento e Vida, cap. 7, “Trabalho”). Os quatro homens saíram do lugar onde estavam, enfrentaram o risco de chegar ao acampamento inimigo e, depois da descoberta, transformaram a informação encontrada em benefício para outras pessoas. A ação adquiriu finalidade quando foi direcionada ao atendimento das necessidades da cidade.
Em Pão Nosso, psicografada por Francisco Cândido Xavier, Emmanuel destaca a importância do tempo presente e do aproveitamento das possibilidades disponíveis no dia que passa. Essa ideia se relaciona diretamente com a decisão dos quatro homens: “Hoje é dia de boas-novas, e nós nos calamos.” (Pão Nosso, cap. 69, “Hoje”). Eles reconheceram que havia uma informação capaz de beneficiar outras pessoas e decidiram agir naquele momento. A lição valoriza o tempo presente como oportunidade permanente de exercício do bem.
Em outra lição de Pão Nosso, Emmanuel apresenta a intercessão como expressão de fraternidade e como ação capaz de produzir forças benéficas e iluminativas em favor de quem necessita de auxílio. (Pão Nosso, cap. 17, “Intercessão”) O episódio de Samaria apresenta uma situação em que os recursos humanos pareciam esgotados e uma mudança inesperada permitiu que a cidade tivesse acesso novamente ao alimento. Essa abordagem amplia a compreensão do episódio ao considerar a possibilidade de auxílio espiritual nas situações de necessidade.
Os Fenômenos
Os sírios fugiram depois de ouvirem um grande ruído e entenderem que forças militares estavam chegando. A Bíblia atribui o acontecimento à ação de Deus. Kardec ensina que os fenômenos extraordinários estão submetidos às leis naturais. (2 Reis 7:6-7; A Gênese, cap. 14, item 14)
Os quatro homens sofreram a mesma fome que atingia Samaria, encontraram alimentos e bens e poderiam ter guardado a descoberta para si. Levaram a notícia à cidade e contribuíram para que outros tivessem acesso aos alimentos. A caridade é dever para com o próximo. (O Livro dos Espíritos, q. 886)
Os quatro homens levaram à cidade a notícia da fuga dos sírios e da existência de alimentos no acampamento. Kardec ensina que diferentes tarefas podem constituir missões úteis, inclusive levar um aviso que beneficie outras pessoas. (O Livro dos Espíritos, q. 571)
Quatro homens considerados impuros e excluídos da sociedade enfrentavam a mesma fome que atingia Samaria. Ao encontrarem o acampamento sírio abandonado, poderiam ter guardado para si a descoberta. Em vez disso, pensaram nos demais famintos e levaram a notícia à cidade.
A condição social dos quatro homens não impediu que realizassem uma tarefa útil à coletividade, nem os credenciava para isso.
Séculos depois, Jesus encontra dez homens com lepra, submetidos ao mesmo afastamento social. O episódio retoma a questão da exclusão e mostra a cura seguida do procedimento previsto pela Lei para a reintegração.
Equipe Vida e Espiritismo
O Evangelho Segundo o Espiritismo
Allan Kardec valoriza a Bíblia como fonte de ensinamentos morais, sobretudo os Evangelhos.
Ele alerta, porém, contra interpretações literais ou dogmáticas.
O Espiritismo ajuda a esclarecer as passagens bíblicas à luz da razão e do ensino dos Espíritos (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução e cap. 1).
O vídeo a seguir auxilia na compreensão inicial do relato bíblico