João, o precursor
Por que uma multidão deixa Jerusalém para confessar seus erros a um homem que prega fora do Templo?
Marcos inicia seu Evangelho com João Batista, que vive no deserto da Judeia, veste-se com pelo de camelo, batiza no rio Jordão e anuncia a chegada de alguém superior a ele. Moradores da Judeia e de Jerusalém vão até João, confessam seus pecados e recebem o batismo.
A passagem reúne antigas profecias, o chamado ao arrependimento e a declaração de João sobre aquele que virá depois dele. A Doutrina Espírita fornece princípios para examinar quem foi João, o que leva a multidão até ele, sua relação com Elias e a missão de preparar o caminho para Jesus, além do arrependimento, da confissão dos erros e da mudança de conduta.
Este é o começo do Evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Como está escrito no livro do profeta Isaías:
— Envio meu mensageiro à sua frente; ele preparará o seu caminho. Uma voz grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas.
Assim apareceu João, que batizava no deserto e anunciava um batismo de arrependimento para o perdão dos pecados.
Toda a região da Judeia e os moradores de Jerusalém iam até ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por João no rio Jordão.
João vestia roupas feitas de pelo de camelo, usava um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre.
Ele anunciava:
— Depois de mim vem alguém mais forte que eu. Não sou digno nem de me abaixar para desamarrar as correias das sandálias dele. Eu batizo vocês com água, mas ele os batizará com o Espírito Santo.
João Batista. O Evangelho de Lucas conta que João era filho de Zacarias, sacerdote, e de Isabel, um casal idoso que não tinha filhos. Um anjo anunciou a Zacarias que o menino deveria receber o nome de João e prepararia o povo para o Senhor, agindo “com o espírito e o poder de Elias”. Isabel era parente de Maria, mãe de Jesus, e João nasceu cerca de seis meses antes dele. Embora viesse de uma família sacerdotal, João viveu no deserto até começar sua missão pública. (Lucas 1:5–17, 26, 36, 57–63, 80)
O nome João vem do hebraico Yohanan, “o Senhor é misericordioso”. O título Batista identifica sua atividade e vem do grego baptistés, “aquele que batiza”, relacionado ao verbo baptízō, “mergulhar”. Mateus o chama de “João, o Batista”, e Marcos relata que ele batizava. Já precursor é aquele que vem antes para preparar a chegada de outro. João recebe essa denominação porque convoca as pessoas ao arrependimento, batiza no rio Jordão e anuncia alguém superior a si mesmo. (Mateus 3:1; Marcos 1:4–8)
Elias. Foi um profeta que viveu séculos antes de João. O livro bíblico de 2 Reis descreve Elias usando uma roupa de pelos e um cinto de couro, características semelhantes às roupas de João. A aproximação entre os dois também aparece no anúncio do anjo a Zacarias, segundo o qual João atuaria “com o espírito e o poder de Elias”. (2 Reis 1:8; Lucas 1:17)
Jesus. Marcos apresenta Jesus logo na abertura do Evangelho como Cristo, o Filho de Deus, e João o anuncia como aquele que vem depois dele. (Marcos 1:1, 7)
A multidão. Marcos menciona moradores de toda a região da Judeia e de Jerusalém. Vivendo sob domínio romano, essas pessoas vão ao deserto para ouvir João, confessar seus pecados e receber o batismo no rio Jordão. A cena apresenta uma pregação que convoca à mudança de conduta fora do espaço do Templo. (Marcos 1:5)
O deserto e o Jordão. João pregava no deserto da Judeia, a leste de Jerusalém, e batizava no rio Jordão. O deserto fazia parte da memória bíblica: o livro do Êxodo narra a travessia dos israelitas depois da saída do Egito, e o livro de Josué conta a passagem do Jordão durante a entrada na terra prometida. Esses lugares estavam associados a acontecimentos importantes da história bíblica e ajudam a situar a atividade de João. (Êxodo 13:17–18; Josué 3:14–17; Marcos 1:4–5)
O domínio romano e a religião judaica. Na época de João, a Judeia estava sob domínio romano. Herodes Antipas governava a Galileia e a Pereia, e Lucas situa o início da pregação de João no décimo quinto ano do imperador Tibério. O Templo de Jerusalém era o principal centro do culto judaico. Nele, os sacerdotes ofereciam sacrifícios previstos na Lei de Moisés, inclusive ofertas relacionadas ao perdão de determinadas faltas. A Lei também previa a confissão de pecados e ritos de purificação. João, por sua vez, pregava no deserto e batizava no rio Jordão, chamando as pessoas a reconhecer seus pecados e a se arrependerem. (Lucas 3:1; Levítico 4; 5:5–6; 16; Marcos 1:4–5)
A alimentação de João. Marcos informa que João se alimentava de gafanhotos e mel silvestre, alimentos que podia encontrar no ambiente natural. Essa descrição complementa o retrato de João como alguém que vivia no deserto, afastado do modo de vida das cidades. (Marcos 1:6)
O início do Evangelho e as profecias. Marcos começa apresentando Jesus como Cristo, o Filho de Deus. Evangelho significa “boa notícia”, e Cristo corresponde a Messias, título que significa “Ungido”. Para apresentar João, Marcos reúne referências de Êxodo, Malaquias e Isaías, embora introduza a citação pelo nome de Isaías. A referência de Êxodo apresenta o mensageiro enviado à frente; Isaías associa a voz no deserto à preparação do caminho no contexto da promessa de retorno do exílio na Babilônia; Malaquias anuncia um mensageiro que preparará o caminho do Senhor e, em outra passagem, o envio de Elias. Em Mateus 11:10, Jesus aplica a João a profecia de Malaquias ao identificá-lo como o mensageiro enviado para preparar o caminho do Senhor. (Marcos 1:1–3; Êxodo 23:20; Isaías 40:3; Malaquias 3:1; 4:5; Mateus 11:10)
João e Elias. A relação entre os dois profetas aparece de diferentes formas nos Evangelhos. Em Mateus, Jesus identifica João com o Elias que havia de vir. No Evangelho de João, quando perguntam ao Batista se ele é Elias, João responde que não. Essas passagens apresentam a questão em contextos diferentes. Na interpretação espírita, a afirmação de Jesus é relacionada à reencarnação; essa explicação doutrinária será desenvolvida na seção de Interpretação Espírita. (Mateus 11:14; João 1:21)
O arrependimento. Marcos associa o batismo de João ao arrependimento e à confissão dos pecados. A palavra grega metanoia, traduzida como “arrependimento”, expressa uma mudança de pensamento e de orientação. Na pregação de João, o chamado envolve reconhecer os erros e mudar de direção, preparando as pessoas para a chegada daquele que virá depois dele. (Marcos 1:4–5)
O batismo com o Espírito Santo. João distingue o batismo que realiza com água daquele que será realizado por Jesus com o Espírito Santo. Essa promessa se relaciona com anúncios de livros proféticos do Antigo Testamento. No livro de Joel, Deus promete derramar seu Espírito sobre as pessoas. No livro de Ezequiel, a imagem da água pura aparece associada à purificação, a um coração novo e a um espírito novo. Essas referências ajudam a compreender a linguagem de renovação presente na promessa de João. (Joel 2:28–29; Ezequiel 36:25–27; Marcos 1:8)
Marcos registra que moradores da Judeia e de Jerusalém deixam suas cidades, confessam seus pecados e são batizados. Em O Livro dos Espíritos, questão 621, os Espíritos superiores respondem que a lei de Deus está escrita na consciência. Na questão 622, explicam que, em todos os tempos, houve Espíritos superiores encarnados com a missão de transmitir a lei de Deus e contribuir para o progresso da Humanidade. Aplicado à passagem, o princípio indica o que atrai a multidão: João lembra uma lei que cada pessoa já traz em si. (O Livro dos Espíritos, q. 621 e 622)
Em Mateus 11:14, Jesus afirma que João é o Elias que havia de vir. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec comenta essa frase e escreve que ela não tem figura nem alegoria: é uma afirmação positiva. Kardec explica também que o corpo de João não podia ser o de Elias, porque João foi visto criança e seus pais eram conhecidos. A identificação só pode ser entendida, portanto, como reencarnação, que é a volta do Espírito à vida corporal em um corpo novo, e não como ressurreição. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 4, itens 4 e 11)
Em João 1:21, João responde que não é Elias. Kardec trata do esquecimento do passado: durante a vida corporal, o Espírito não guarda a lembrança das existências anteriores e a recupera no mundo espiritual. Na interpretação espírita, esse princípio permite compreender por que João não se identifica como Elias. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 5, item 11)
Marcos relata que as pessoas confessavam seus pecados e eram batizadas. Confessar exige reconhecer o erro, e a questão 919 descreve como: ao fim do dia, rever os atos e perguntar se algum dever foi negligenciado e se alguém teve motivo de queixa. Esse exame ajuda a reconhecer erros como os que as pessoas confessam a João. (O Livro dos Espíritos, q. 919)
O batismo de João era um gesto exterior, ligado por Marcos ao arrependimento e à confissão. Na questão 653, Kardec ensina que a verdadeira adoração está no coração e que as manifestações exteriores são úteis quando não são aparência. Aplicado ao batismo de João, o princípio indica que o gesto vale quando acompanha a decisão de mudar de conduta, e o rito, sozinho, não faz essa mudança. (O Livro dos Espíritos, q. 653)
Na questão 990 os Espíritos superiores respondem que o arrependimento ocorre no estado espiritual, ou seja, no mundo dos Espíritos, e que também pode ocorrer no estado corporal, durante a vida na Terra, quando a pessoa compreende a diferença entre o bem e o mal. As pessoas que procuram João estão vivas, e em vida ainda podem mudar o que fazem. (O Livro dos Espíritos, q. 990)
Pessoas que procuram João perguntam o que devem fazer. Ele responde com orientações práticas: repartir roupas e alimentos com quem não tem, cobrar apenas o devido, não extorquir nem acusar falsamente e contentar-se com o próprio salário. (Lucas 3:10–14) Os Espíritos superiores explicam que as faltas se resgatam pela reparação, isto é, pela correção do mal causado. O arrependimento se traduz em mudança de conduta e esforço para reparar o mal praticado. (O Livro dos Espíritos, q. 1000)
Marcos identifica, no primeiro versículo, aquele que João anuncia: Jesus Cristo, o Filho de Deus. (Marcos 1:1) Na questão 625, Kardec apresenta Jesus como o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para servir de guia e modelo. (O Livro dos Espíritos, q. 625)
Em Caminho, Verdade e Vida, capítulo 16, “Endireitai os caminhos”, Emmanuel comenta a exortação de Isaías, citada por Marcos ao apresentar João como aquele que prepara o caminho do Senhor. Emmanuel relaciona essa preparação à mudança de conduta: pedir a presença do Cristo implica retificar a própria maneira de viver e regenerar os próprios impulsos. (Caminho, Verdade e Vida, cap. 16)
Em Boa Nova, capítulo 2, “Jesus e o Precursor”, Irmão X descreve João como a voz clamante do deserto, vestido de peles e alimentado de mel silvestre, e como o primeiro sinal do cristão ativo, em luta com as próprias imperfeições para estabelecer em si mesmo o lugar de sua realização com o Cristo. O capítulo lembra a frase de Jesus de que, entre os nascidos de mulher, João é o maior. (Boa Nova, cap. 2)
Em Fonte Viva, capítulo 56, “Renasce agora”, Emmanuel parte da frase de Jesus sobre nascer de novo (João 3:3) e fala das oportunidades diárias de recomeço moral: guardar do passado o que é bom, deixar de lado seus detritos e sombras e renascer nos propósitos, nas decisões e nas atitudes. A relação com Marcos 1:4 está na metanoia, isto é, “mudança de mente” que o arrependimento anunciado por João indica. (Fonte Viva, cap. 56)
Marcos descreve uma multidão que sai das cidades para confessar seus erros a um mensageiro que prega fora do Templo. Segundo os Espíritos superiores, a lei de Deus está escrita na consciência de cada pessoa, e a pregação de João a lembra. O reconhecimento do erro começa no exame da conduta, o arrependimento pode ocorrer em vida e as faltas se resgatam pela reparação.
Kardec explica a identificação de João com Elias, afirmada por Jesus, pela reencarnação. Também explica que, durante a vida corporal, o Espírito não conserva a lembrança de suas existências anteriores, o que indica por que João não se reconhece como Elias. João declara não ser digno de servir a Jesus, que Kardec apresenta como o modelo de perfeição moral para a Humanidade.
Equipe Vida e Espiritismo
O Evangelho Segundo o Espiritismo
Allan Kardec valoriza a Bíblia como fonte de ensinamentos morais, sobretudo os Evangelhos.
Ele alerta, porém, contra interpretações literais ou dogmáticas.
O Espiritismo ajuda a esclarecer as passagens bíblicas à luz da razão e do ensino dos Espíritos (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução e cap. 1).
O vídeo a seguir auxilia na compreensão inicial do relato bíblico