Saulo encontra Jesus
Quando a convicção de servir a Deus leva à violência, o que pode interromper isso?
Saulo de Tarso não parte para Damasco em busca de respostas. Está convencido de que precisa combater os seguidores de Jesus e obtém autorização para prendê-los. Entretanto, no caminho, encontra aquele que acredita estar combatendo. A experiência interrompe sua viagem, retira-lhe a visão e inaugura uma mudança que será reconhecida até por seus antigos adversários.
O episódio de Atos 9:1-25 permite examinar questões importantes: até que ponto uma convicção pessoal pode comprometer nossas escolhas? Como os Espíritos se manifestam depois da morte? Qual é a participação dos encarnados nas orientações espirituais? E como reconhecer uma transformação que realmente aconteceu?
A Doutrina Espírita oferece elementos para compreender esses acontecimentos e refletir sobre a responsabilidade individual, a comunicação espiritual e a renovação moral.
Saulo continuava a ameaçar de morte os discípulos do Senhor Jesus. Foi ao sumo sacerdote e pediu cartas para as sinagogas de Damasco. Com elas, poderia prender e levar a Jerusalém os homens e as mulheres que pertenciam ao Caminho, se encontrasse algum.
Durante a viagem, já perto de Damasco, uma luz vinda do céu brilhou de repente ao redor dele. Saulo caiu no chão e ouviu uma voz:
— Saulo, Saulo, por que você me persegue?
Ele perguntou:
— Quem é você, Senhor?
A voz respondeu:
— Eu sou Jesus, a quem você persegue. É inútil resistir, como quem chuta contra os aguilhões.
Tremendo e assustado, Saulo perguntou:
— Senhor, o que quer que eu faça?
O Senhor respondeu:
— Levante-se e entre na cidade. Lá lhe dirão o que você deve fazer.
Os homens que viajavam com Saulo ficaram parados, sem conseguir falar. Ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo se levantou do chão e, de olhos abertos, não enxergava nada. Eles o pegaram pela mão e o levaram a Damasco. Durante três dias Saulo ficou sem ver, sem comer e sem beber.
Em Damasco havia um discípulo chamado Ananias. O Senhor falou com ele numa visão:
— Ananias!
Ele respondeu:
— Estou aqui, Senhor.
O Senhor disse:
— Levante-se e vá à rua chamada Direita. Na casa de Judas, procure um homem de Tarso chamado Saulo. Ele está orando e viu, numa visão, um homem chamado Ananias entrar e colocar as mãos sobre ele para que voltasse a enxergar.
Ananias respondeu:
— Senhor, muita gente já me falou desse homem e de todo o mal que ele fez aos seus seguidores em Jerusalém. Ele veio aqui com autorização dos chefes dos sacerdotes para prender todos os que invocam o seu nome.
O Senhor disse:
— Vá, porque esse homem é um instrumento escolhido por mim para levar o meu nome aos povos que não são judeus, aos reis e ao povo de Israel. Eu mostrarei a ele quanto deve sofrer por causa do meu nome.
Ananias foi, entrou na casa, colocou as mãos sobre Saulo e disse:
— Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que apareceu a você no caminho, me enviou para que você volte a ver e fique cheio do Espírito Santo.
No mesmo instante, algo como escamas caiu dos olhos de Saulo, e ele voltou a enxergar. Levantou-se e foi batizado. Depois alimentou-se e recuperou as forças. Ficou alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco.
Logo em seguida, Saulo começou a anunciar nas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os que o ouviam ficavam perplexos e perguntavam:
— Este não é o homem que perseguia, em Jerusalém, os que invocam o nome de Jesus? Não veio aqui para prendê-los e levá-los aos chefes dos sacerdotes?
Saulo ficava cada vez mais firme e deixava sem resposta os judeus que moravam em Damasco, provando que Jesus é o Cristo.
Depois de muitos dias, os judeus combinaram entre si matar Saulo, mas ele ficou sabendo do plano. Dia e noite eles vigiavam os portões da cidade para matá-lo. Então, numa noite, os discípulos o colocaram num cesto e o desceram pela muralha.
Saulo de Tarso: Judeu nascido em Tarso, cidade da Cilícia, pertencente à tribo de Benjamim. Era fariseu e estudou a Lei de Moisés em Jerusalém, sob a orientação de Gamaliel. Também era conhecido pelo nome Paulo, utilizado nos relatos posteriores de Atos.
Ananias: Discípulo de Jesus que morava em Damasco. Conhecia a reputação de Saulo e sabia que ele havia recebido autorização para prender os seguidores de Jesus.
Sumo sacerdote: Principal autoridade religiosa do judaísmo em Jerusalém, responsável pelo Templo e pela direção do sacerdócio. Saulo recorreu a ele para obter cartas destinadas às sinagogas de Damasco.
Os discípulos do Caminho: Primeiros seguidores de Jesus. Eram chamados assim por reconhecerem nele o caminho para Deus e se reunirem para viver e divulgar seus ensinamentos.
A perseguição aos seguidores de Jesus ganhou força em Jerusalém depois da morte de Estêvão, apedrejado por causa de sua pregação. Saulo participou daquele episódio e passou a perseguir os discípulos, entrando nas casas e levando homens e mulheres para a prisão. Muitos fugiram para outras regiões, inclusive para Damasco. (Atos 7:58; 8:1-3)
A divergência envolvia a identidade de Jesus. Seus seguidores anunciavam que ele era o Cristo, palavra grega equivalente a Messias, o Ungido esperado pelo povo judeu. Entretanto, a Lei de Moisés afirmava que aquele que fosse pendurado em madeira era considerado maldito (Deuteronômio 21:23). Como Jesus havia sido crucificado, a afirmação de que ele era o Messias representava, para os opositores, uma contradição religiosa grave.
Saulo era fariseu e zeloso das tradições de seus antepassados. Sua formação religiosa e suas convicções contribuíram para que considerasse a perseguição uma maneira de defender a Lei. (Gálatas 1:13-14; Filipenses 3:5-6)
Damasco ficava ao norte de Jerusalém, a mais de duzentos quilômetros de distância. Era uma cidade importante, com comunidades judaicas e sinagogas. A viagem de Saulo tinha, portanto, um objetivo definido: alcançar os seguidores de Jesus que haviam se refugiado ali.
A fuga de Saulo, no final do episódio, também aparece em seu relato posterior. Em 2 Coríntios 11:32-33, Paulo conta que o governador nomeador pelo rei Aretas mandou vigiar a cidade para prendê-lo, mas ele escapou ao ser descido num cesto por uma abertura na muralha.
O episódio ocupa uma posição importante no livro de Atos dos Apóstolos. A mensagem de Jesus, inicialmente anunciada em Jerusalém, alcançaria outros povos. Saulo, antes perseguidor, seria escolhido para divulgar essa mensagem entre os não judeus, os reis e o povo de Israel. (Atos 1:8; 9:15)
Outro aspecto importante é a identificação de Jesus com seus seguidores. Ao perguntar por que Saulo o perseguia, Jesus estabelece uma relação direta entre o tratamento dispensado aos discípulos e o que era feito contra ele.
O relato também apresenta duas manifestações espirituais: Jesus se comunica com Saulo durante a viagem, enquanto Ananias recebe orientações em uma visão. A participação de ambos será importante para compreender o desenvolvimento dos acontecimentos.
1. A perseguição como escolha de Saulo
Tudo começa com um pedido. Saulo vai ao sumo sacerdote e solicita as cartas que o autorizam a prender os discípulos de Damasco. Ninguém o obriga a isso, e a viagem parte de uma decisão dele. Na questão 843, os Espíritos respondem que quem tem a liberdade de pensar tem também a de agir e que, sem livre-arbítrio, o homem seria uma máquina. Por isso, a perseguição e a mudança de conduta que vem depois pertencem a Saulo, e é ele quem responde por ambas. (O Livro dos Espíritos, q. 843)
2. A pergunta “Quem é você, Senhor?”
A estrada interrompe Saulo com uma pergunta, e ele responde com outra: quer saber quem fala. Quem perseguia com ameaças e cartas de prisão não sabia quem estava do outro lado da perseguição. Kardec escreve que só é inabalável a fé que consegue encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade. A convicção que levava Saulo a Damasco ainda não tinha passado por esse exame, e a pergunta dele abre essa verificação. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 19, item 7)
3. Jesus aparece a Saulo
A voz responde com um nome: “Eu sou Jesus, a quem você persegue”. Mais tarde, Ananias confirma que o Senhor Jesus apareceu a Saulo no caminho. Jesus, crucificado antes dessa viagem, se apresenta depois da morte. Kardec explica esse tipo de aparição pelas leis fluídicas e pelas propriedades do perispírito, o envoltório fluídico que une o Espírito ao corpo e permanece com ele depois da morte. Ele observa também que, nas aparições de Jesus, uns o veem e outros não. É o que se dá na estrada: Saulo recebe a aparição, e os companheiros ouvem a voz sem ver ninguém. (A Gênese, cap. 15, item 61)
4. “Levante-se e entre na cidade”
Passado o susto, Saulo faz uma segunda pergunta: o que deve fazer. Jesus responde com uma ordem de ação. Saulo deve se levantar e entrar em Damasco, onde lhe dirão o que fazer. Ele não recebe tudo explicado na estrada. Levanta-se, é conduzido pela mão pelos companheiros e espera três dias. No capítulo 25 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec trata da máxima “Ajuda-te, que o Céu te ajudará”. A orientação de Jesus, portanto, não dispensa o esforço de Saulo. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 25)
5. Ananias recebe a orientação e decide
Enquanto Saulo espera, Ananias recebe uma tarefa. Ele ouve o chamado, argumenta que conhece a fama de Saulo e o mal feito em Jerusalém e, mesmo assim, vai. A orientação não impede a argumentação e não decide por ele. Na questão 525, Kardec pergunta se os Espíritos exercem influência nos acontecimentos da vida, e a resposta é que certamente exercem, pois aconselham. O conselho chega a Ananias, e a decisão de ir pertence a ele. (O Livro dos Espíritos, q. 525)
6. Ananias acolhe quem veio prendê-lo
Ao chegar, Ananias entra na casa, coloca as mãos sobre Saulo e o chama de irmão. Quem veio a Damasco para prender discípulos é recebido por um deles. Na questão 886, os Espíritos definem a caridade, como Jesus a entendia, como benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições dos outros e perdão das ofensas. Ao chamar Saulo de irmão, Ananias age conforme esse perdão das ofensas. (O Livro dos Espíritos, q. 886)
7. O sofrimento anunciado
Na mesma visão em que envia Ananias, Jesus diz que mostrará a Saulo quanto ele deverá sofrer por seu nome. Esse sofrimento está ligado à missão que ele passaria a cumprir, e não é apresentado como castigo. Ananias havia lembrado o mal que Saulo fez aos seguidores de Jesus em Jerusalém. Na questão 1000, Kardec pergunta se é possível reparar as faltas ainda na vida atual, e os Espíritos respondem que sim. Saulo que perseguia os seguidores de Jesus passa a anunciá-lo e segui-lo. (O Livro dos Espíritos, q. 1000)
8. A mudança reconhecida em Damasco
Os ouvintes de Damasco reconhecem em Saulo o homem que veio prender os que invocam o nome de Jesus e ficam perplexos com o que ele passa a dizer. A diferença está no que ele faz: de ameaças e cartas de prisão para o anúncio nas sinagogas. Kardec escreve que o verdadeiro espírita se reconhece pela transformação moral e pelos esforços para domar as más inclinações. O critério é a conduta, e foi pelo que Saulo passou a fazer e a dizer que a mudança foi notada. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 17, item 4)
Emmanuel, em Caminho, Verdade e Vida, comenta a frase de Jesus sobre os aguilhões (Atos 9:5). No capítulo 150, “Aguilhões”, apresenta dificuldades como a riqueza e a pobreza, a formosura e a falta de beleza, o sofrimento e a luta como circunstâncias da vida que Jesus permite em benefício do progresso humano. Emmanuel destaca que, se Paulo de Tarso não conseguiu resistir aos aguilhões, ninguém deve acreditar que esteja livre de enfrentá-los. (Caminho, Verdade e Vida, cap. 150)
Na mesma obra, capítulo 39, “Entra e coopera”, parte da ordem para entrar em Damasco (Atos 9:6). Emmanuel pergunta por que Jesus, depois de aparecer a Paulo, o enviou à cidade para ouvir o que lhe convinha fazer, e responde que a cooperação entre os homens é o princípio pelo qual Jesus acompanha a Humanidade. Paulo precisou de Ananias para iniciar a tarefa que lhe cabia. (Caminho, Verdade e Vida, cap. 39)
Esse papel de Ananias é o tema de Fonte Viva, capítulo 17, “Cristo e nós”, que parte de Atos 9:10. Emmanuel escreve que Jesus, mesmo depois de visitar Paulo pessoalmente, procurou Ananias para socorrer o novo discípulo, e que a redenção vem do Alto, mas conta com a colaboração dos corações de boa vontade. (Fonte Viva, cap. 17)
Em Vinha de Luz, capítulo 125, “O Senhor mostrará”, Emmanuel parte da frase de Jesus sobre o sofrimento de Paulo (Atos 9:16). Ele descreve o perseguidor e o perseguido reunidos no trabalho útil e na fraternidade: Ananias socorre Paulo, e Paulo lhe devolve alegria. O Senhor mostrará a cada trabalhador o serviço e o testemunho que lhe cabem. (Vinha de Luz, cap. 125)
Depois do encontro, a vida de Paulo muda de direção, e Pão Nosso, capítulo 178, “Combate interior”, descreve essa mudança. Emmanuel relata que Paulo, na juventude, combatia por posição e vitória sobre os outros, até ser chamado a combater consigo mesmo, e que passa então a usar os braços para ajudar e servir. Esse capítulo se relaciona com Atos 9:20-22, em que Saulo muda de ocupação. (Pão Nosso, cap. 178)
Saulo sai de Jerusalém com cartas para prender os discípulos de Jesus, mas chega a Damasco conduzido pela mão, pois perdeu a visão. Na estrada, ouve a voz de Jesus, que o questiona sobre a perseguição e lhe ordena entrar na cidade. Ananias, um discípulo de Jesus, é enviado até Saulo. Embora receoso, obedece à ordem, vai ao seu encontro e o recebe como irmão. Saulo recupera a visão, é batizado, começa a anunciar Jesus nas sinagogas e, diante da ameaça de morte, escapa de Damasco dentro de um cesto.
Segundo os princípios apresentados por Kardec, a perseguição foi uma escolha de Saulo, resultado de seu livre-arbítrio. A aparição de Jesus se explica pelas propriedades do perispírito, e os companheiros de viagem percebem o fenômeno de maneira diferente de Saulo. Os Espíritos aconselham, mas Ananias é livre para decidir. O sofrimento anunciado está ligado ao testemunho, e as faltas podem ser reparadas ainda na vida atual. A transformação moral se reconhece pela conduta, como demonstram as reações dos ouvintes em Damasco.
O Espírito conserva sua individualidade depois da morte, e Jesus se comunica com Saulo depois da crucificação. A passagem apresenta a mudança de um perseguidor, que passa a seguir aquele a quem perseguia, e a atitude de Ananias, que o acolhe como irmão.
Equipe Vida e Espiritismo
O Evangelho Segundo o Espiritismo
Allan Kardec valoriza a Bíblia como fonte de ensinamentos morais, sobretudo os Evangelhos.
Ele alerta, porém, contra interpretações literais ou dogmáticas.
O Espiritismo ajuda a esclarecer as passagens bíblicas à luz da razão e do ensino dos Espíritos (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução e cap. 1).
O vídeo a seguir auxilia na compreensão inicial do relato bíblico